Quando analisamos friamente a paixão que sentimos por um clube de futebol, vemos que é uma coisa meio sem sentido e até certo ponto irracional. Diante de uma partida de futebol de nosso time de coração nós rimos, gritamos e até choramos, ou desconsolados por uma derrota, ou por uma alegria incontida numa vitória. Também podemos ficar indiferentes ou aborrecidos por um empate.
E de onde vem tudo isto? Muitos nem sabem explicar... Mas eu me lembro muito bem, e isto ocorreu em dois momentos de minha vida!
O primeiro foi logo que eu comecei a me interessar por futebol, quando eu tinha cerca de 6 anos de idade, em 1975. Lembro quando estava circulando com a minha mãe numa calçada, quando paramos diante de uma pequena loja de armarinhos, daquelas do interior, onde se vende de tudo. Pude ver penduradas no alto de uma parede duas camisas estampadas com símbolos, que logo identifiquei como sendo de clubes de futebol. Interessei-me, pois já dava meus primeiros chutes numa bola e queria então ter uma camisa de algum clube de futebol. Quando fui perguntado pela minha mãe qual daquelas camisas eu queria, fiquei em dúvida, pois até aquele momento eu não tinha nenhuma preferência. Minha mãe, percebendo esta dúvida, logo sugeriu aquela que ela sabia ser a do clube do meu pai, e aí eu não tive mais nenhuma dúvida. Qual a camisa eu escolhi? Uma camisa de malha de algodão, bem modesta, que estampava um símbolo verde bem ao centro e que tomava toda a frente da camisa. Até o momento da escolha, aquela camisa significava apenas isto, não era nem mais bonita e nem mais feia do que a que estava ao seu lado (que, aliás, hoje, acho horrível!). Quando saímos da loja, eu não via a hora de chegar em casa e vestir aquela camisa pela primeira vez.
Quando pude finalmente vesti-la, sai dando alguns chutes na minha bola de futebol nos fundos do quintal de minha casa, quando percebi que aquela camisa já não era mais uma mera camisa com uma estampa verde qualquer na parte da frente, aquela camisa era “A” camisa, a camisa do Coritiba Foot Ball Club. Passei dias usando aquela camisa, sempre ouvindo as broncas da minha mãe, pois não queria tirá-la nem para ser lavada. Dentro de algum tempo ela esfarrapou-se, mas aí vieram outras para substituí-la, mas nunca mais houve nenhuma dúvida na hora dessas trocas. Meu coração já era em parte Coxa Branca. Em parte...
O segundo acontecimento que foi decisivo para que aquela preferência se tornasse em amor, aconteceu muito tempo depois. Aproveitando uma viagem que teria que ser feita para Curitiba, meu pai me levou junto para assistir a uma das partidas das finais do estadual de 1978, um Atletiba que aconteceria naquela noite. Eu nunca tinha entrado num estádio de futebol antes e nem tinha idéia do que me esperava.
Quando chegamos na região do Alto da Glória, pude ver a aglomeração de carros e pessoas ao redor do estádio, o Couto Pereira, para mim um gigante, mesmo sendo visto pelo lado de fora. Aquilo tudo para mim já era inédito e impressionante. Ao entramos no estádio, pude perceber o que aquele gigante realmente representava. Quando somos crianças tudo é maior, não só as pessoas, mas as coisas são percebidas de uma maneira diferente. São mais grandiosas e imponentes. No início não pude ver muita coisa, somente pernas, mas quando achamos um bom local para assistirmos ao jogo e minha visão se abriu, fiquei extasiado com aquele local imenso e lotado de pessoas; nunca tinha visto tanta gente reunida num só lugar. Ficamos esperando por algum tempo, mas logo os times entraram em campo e pude ver os fogos de artifício, as bandeiras e a festa da torcida vibrando quando o time verde e branco entrou no gramado. Fiquei de boca aberta... Não só pelo time de jogadores profissionais, ídolos que até então só tinha visto pela televisão, mas também pela torcida que explodiu. Que força era aquela que fazia o estádio tremer? Até então, nunca tinha assistido àquele espetáculo na minha vida, e foi inesquecível... Confesso hoje que do jogo não me lembro mais, pois acho que estava mais interessado nas coisas que aconteciam ao meu redor, na aglomeração de gente com bandeiras, faixas e camisas verde e branco, muitas com a inscrição MUC. Aquela partida não teve gols, o que foi decepcionante para muitos, inclusive para meus pais. Mas para mim isto não importava, o que eu tinha visto me bastou. Mais do que isto, uma paixão transformou-se em amor e, em se tratando de futebol, único e incondicional. Hoje aquele jogo ainda me faz pensar: Só uma vitória ou título podem nos fazer felizes? Nem sempre...
Só para relembrar: o título deste ano foi decidido em uma série de três partidas contra o Atlético Paranaense. Após três jogos, que terminaram em 0x0 e que levaram mais de 150 mil pessoas para o Couto Pereira, o título foi decidido nos pênaltis. O resultado foi de 4x1 para o Coritiba, sagrando-se campeão pela primeira vez, após a série do hexacampeonato conquistado de 1971 a 1976.
Ronaldo José do Carmo, 39 anos.
Quando analisamos friamente a paixão que sentimos por um clube de futebol, vemos que é uma coisa meio sem sentido e até certo ponto irracional. Diante de uma partida de futebol de nosso time de coração nós rimos, gritamos e até choramos, ou desconsolados por uma derrota, ou por uma alegria incontida numa vitória. Também podemos ficar indiferentes ou aborrecidos por um empate.
E de onde vem tudo isto? Muitos nem sabem explicar... Mas eu me lembro muito bem, e isto ocorreu em dois momentos de minha vida!
O primeiro foi logo que eu comecei a me interessar por futebol, quando eu tinha cerca de 6 anos de idade, em 1975. Lembro quando estava circulando com a minha mãe numa calçada, quando paramos diante de uma pequena loja de armarinhos, daquelas do interior, onde se vende de tudo. Pude ver penduradas no alto de uma parede duas camisas estampadas com símbolos, que logo identifiquei como sendo de clubes de futebol. Interessei-me, pois já dava meus primeiros chutes numa bola e queria então ter uma camisa de algum clube de futebol. Quando fui perguntado pela minha mãe qual daquelas camisas eu queria, fiquei em dúvida, pois até aquele momento eu não tinha nenhuma preferência. Minha mãe, percebendo esta dúvida, logo sugeriu aquela que ela sabia ser a do clube do meu pai, e aí eu não tive mais nenhuma dúvida. Qual a camisa eu escolhi? Uma camisa de malha de algodão, bem modesta, que estampava um símbolo verde bem ao centro e que tomava toda a frente da camisa. Até o momento da escolha, aquela camisa significava apenas isto, não era nem mais bonita e nem mais feia do que a que estava ao seu lado (que, aliás, hoje, acho horrível!). Quando saímos da loja, eu não via a hora de chegar em casa e vestir aquela camisa pela primeira vez.
Quando pude finalmente vesti-la, sai dando alguns chutes na minha bola de futebol nos fundos do quintal de minha casa, quando percebi que aquela camisa já não era mais uma mera camisa com uma estampa verde qualquer na parte da frente, aquela camisa era “A” camisa, a camisa do Coritiba Foot Ball Club. Passei dias usando aquela camisa, sempre ouvindo as broncas da minha mãe, pois não queria tirá-la nem para ser lavada. Dentro de algum tempo ela esfarrapou-se, mas aí vieram outras para substituí-la, mas nunca mais houve nenhuma dúvida na hora dessas trocas. Meu coração já era em parte Coxa Branca. Em parte...
O segundo acontecimento que foi decisivo para que aquela preferência se tornasse em amor, aconteceu muito tempo depois. Aproveitando uma viagem que teria que ser feita para Curitiba, meu pai me levou junto para assistir a uma das partidas das finais do estadual de 1978, um Atletiba que aconteceria naquela noite. Eu nunca tinha entrado num estádio de futebol antes e nem tinha idéia do que me esperava.
Quando chegamos na região do Alto da Glória, pude ver a aglomeração de carros e pessoas ao redor do estádio, o Couto Pereira, para mim um gigante, mesmo sendo visto pelo lado de fora. Aquilo tudo para mim já era inédito e impressionante. Ao entramos no estádio, pude perceber o que aquele gigante realmente representava. Quando somos crianças tudo é maior, não só as pessoas, mas as coisas são percebidas de uma maneira diferente. São mais grandiosas e imponentes. No início não pude ver muita coisa, somente pernas, mas quando achamos um bom local para assistirmos ao jogo e minha visão se abriu, fiquei extasiado com aquele local imenso e lotado de pessoas; nunca tinha visto tanta gente reunida num só lugar. Ficamos esperando por algum tempo, mas logo os times entraram em campo e pude ver os fogos de artifício, as bandeiras e a festa da torcida vibrando quando o time verde e branco entrou no gramado. Fiquei de boca aberta... Não só pelo time de jogadores profissionais, ídolos que até então só tinha visto pela televisão, mas também pela torcida que explodiu. Que força era aquela que fazia o estádio tremer? Até então, nunca tinha assistido àquele espetáculo na minha vida, e foi inesquecível... Confesso hoje que do jogo não me lembro mais, pois acho que estava mais interessado nas coisas que aconteciam ao meu redor, na aglomeração de gente com bandeiras, faixas e camisas verde e branco, muitas com a inscrição MUC. Aquela partida não teve gols, o que foi decepcionante para muitos, inclusive para meus pais. Mas para mim isto não importava, o que eu tinha visto me bastou. Mais do que isto, uma paixão transformou-se em amor e, em se tratando de futebol, único e incondicional. Hoje aquele jogo ainda me faz pensar: Só uma vitória ou título podem nos fazer felizes? Nem sempre...
Só para relembrar: o título deste ano foi decidido em uma série de três partidas contra o Atlético Paranaense. Após três jogos, que terminaram em 0x0 e que levaram mais de 150 mil pessoas para o Couto Pereira, o título foi decidido nos pênaltis. O resultado foi de 4x1 para o Coritiba, sagrando-se campeão pela primeira vez, após a série do hexacampeonato conquistado de 1971 a 1976.
Ronaldo José do Carmo, 39 anos.